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Psicólogos fazem escutas terapêuticas gratuitas em praças de Fortaleza

  • Publicado em 05/07/2019

Em Fortaleza, os atendimentos psicoterapêuticos encontram obstáculos semelhantes aos de outras diversas cidades do país: gargalos financeiros, alta demanda e tabus ligados à saúde mental. No entanto, iniciativas de psicólogos voluntários têm transformado praças da capital cearense em "consultórios" a céu aberto, garantindo oferta de acolhimento em espaços públicos.

Nesse fim de semana, serão realizadas escutas terapêuticas gratuitas na Praça do Ferreira e no Passeio Público - Praça dos Mártires, no Centro de Fortaleza.

No sábado (6), o Instituto Bia Dote - que atua com prevenção ao suicídio e preservação da vida -, levará o projeto Terapia na Cidade para a Praça do Ferreira das 8h às 11h. Conforme a instituição, a ação deve se repetir durante todos os sábados do mês de julho. Não há agendamento prévio nem triagem e os acolhimentos serão feitos por ordem de chegada. A expectativa é que volte a ocorrer também em agosto e setembro. A cada hora, duas psicólogas se revezarão no atendimento de quem buscar o serviço a céu aberto.

No domingo (7), psicólogos voluntários do projeto Escuta na Praça irão realizar acolhimento terapêutico no Passeio Público, de 9h às 12h. Nas ações, os voluntários levam cadeiras para as praças e o atendimento é feito de modo individual. Não há tempo de atendimento específico definido. A duração da escuta, em geral, depende da necessidade de cada pessoa atendida.

Atendimentos

Esta já é segunda vez que o Instituto Bia Dote realiza esse tipo de ação em Fortaleza. A primeira ocorreu em outubro e novembro de 2018, quando as escutas foram realizadas na Praça da Gentilândia, no Bairro Benfica. O projeto, segundo a presidente do Instituto, Lucinaura Diógenes, não se define com um atendimento psicológico convencional, mas pode ser considerado um "acolhimento ou uma escuta com fins terapêuticos que são conduzido por profissionais qualificados".

Na experiência anterior, o grupo do Instituto Bia Dote, avalia que a procura foi razoável e nas quatro ações realizadas no Bairro Benfica, entre outubro e novembro, cerca de 30 pessoas foram acolhidas.

Já no Projeto Escuta, a procura nas duas edições realizadas, sendo uma na Praça das Flores e outra na Praça da Imprensa Chanceler Edson Queiroz, no Bairro Dionísio Torres, chegou a ser de 50 pessoas.

O perfil do público acolhido, segundo os organizadores, é diverso, acrescenta o psicólogo Adriano Pordeus, integrante do Projeto Escuta. Nas edições foram acolhidas pessoas que tinham necessidade de atendimento e estavam protelando, pessoas que não tinham condições de pagar o tratamento devido à baixa renda salarial e um pequeno número de pessoas que já tinha procurado atendimento particular.

Valores impactam no acesso à terapia

O custo de tratamento particulares ainda é um gargalo para quem deseja fazer psicoterapia, concordam os organizadores das escutas. Segundo valores de referência da Federação Nacional dos Psicólogos, o mínimo que se pode pagar aos psicólogos por uma avaliação psicológica, por exemplo, é R$ 128,30. O valor de referência do acompanhamento psicoterapêutico não pode, em tese, ser inferior é de R$ 104,96 por sessão.

"Podemos dizer que a psicoterapia ainda é um serviço elitizado. E nossa iniciativa é pontual. Não é uma terapia. Mas é uma escuta e o profissional coloca os seus conceitos. Vai sem julgamento. Quando a pessoa começa a falar e vê que é uma escuta respeitosa. Vê que é uma forma de tratamento. É uma forma de se autoconhecer", explica Lucinaura Diógenes.

Outro objetivo da escuta qualificada é a quebra de tabus em relação aos cuidados da saúde mental. "A ideia do escuta foi baseada em iniciativas de outros estados, sobretudo, de grupos organizados em São Paulo. Aqui a iniciativa surgiu com um grupo de colegas que atendem juntos. Sentimos a necessidade de criarmos um serviço de acolhimento de escuta, uma espécie de plantão psicológico. Primeiro porque víamos a necessidade das pessoas de falarem das suas dores, dificuldades e emoções e a gente também sente a dificuldade das pessoas de se aproximarem da psicologia", relata o psicólogo Adriano.

Embora as atividades sejam chances de acesso inicial à psicoterapia, os organizadores das escutas ressaltam que esse tipo de atividade não supre a demanda por tratamentos contínuos. As ações atendem necessidades pontuais e contatos iniciais. O ideal, ressaltam eles, é que quem tem necessidade busque tanto os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da rede pública de saúde como as clínicas escolas da universidades, que ofertam atendimento gratuito ou a baixo custo.

A psicóloga e coordenadora do curso de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Layza Castelo Branco explica que essas iniciativas, ao servirem de acolhimento inicial, com a finalidade de um encaminhamento mais direcionado, podem ser vistas como relevantes. "Sabemos desse estrangulamento por conta dos locais em que a prestação do serviço de psicoterapia é gratuita. Tais locais têm filas de espera grande. Na Uece, por exemplo, há ficha de inscritos que não foram acolhidos desde 2015. Em novembro de 2018, quando divulgamos que abriríamos novas fichas de inscrição, começamos a distribuir senhas 6h30 da manhã e às 8h já havia acabado as 150 senhas".

Fonte: G1 CE